Cultura Prudentina: um Bem Secreto
do GN Online
* Édison Trombeta
A Cultura de Presidente Prudente, embora desenvolvida em relação às outras cidades da região, ainda carece de incentivo. Isso é fato. Se carece de incentivo, esta fadada a ser feita por poucas pessoas e assistida por um número menor ainda. É neste contexto que surgiu na cidade a peça Mal Secreto, uma das raridades que ficam em cartaz por aqui e, por fé dos criadores, por uma boa temporada.
A peça propõe ao público um tipo de mergulho na mente de Heitor, um esquizofrênico em tratamento, mas em meio a uma recaída. Por mais que se tente provar o contrário, no fim pode-se perceber que o maior sofredor de tudo o que se passa é o próprio personagem principal. Mostrando de maneira complicada a relação entre paciente e psiquiatra, mais complicado ainda é descobrir se todas as atrocidades cometidas por Heitor aconteceram mesmo, ou se ele apenas "viu" aquilo.
O texto de José Antonio de Souza, assim como a própria mente de Heitor, não precisam seguir exatamente uma história em si. Diria mais: não há uma história nos moldes clássicos do começo-meio-e-fim. Há apenas uma história, dispensável se levar em conta que a peça é muito mais forte como experiência narrativa do que como sequência de fatos. Não se pode esperar lógica numa peça que entra na mente de um homem com problemas psicológicos.
A direção de Denílson Biguete tenta extrair o máximo de tudo o que compõe a apresentação: atores, atrizes, som (que ele opera), cenário, iluminação... A troca de atores, que pode ser comum em uma peça que é apresentada há mais de seis meses como esta, prejudica um pouco, já que parece que a construção dos personagens não muda, apenas os atores.
A parte técnica – essencial para fazer o público adentrar na mente do esquizofrênico – é ganhadora de vários prêmios. Luzes se acendem e apagam assim como a lucidez de Heitor, como suas várias personalidades. O ambiente é escuro e as demarcações de espaço são alguns "quadrados imaginários", que também servem como clara analogia às armadilhas vistas pelo protagonista. Até mesmo os banquinhos onde a plateia senta podem se mostrar necessários para levar o espectador àquele universo dele, desconfortável até para quem está dentro.
Tanto figurino quanto cenários, ambos muito bem trabalhados em sua simplicidade, exploram apenas três cores. Fica claro que tudo tem dois lados, o bom e o ruim, o branco e o preto (não necessariamente nesta ordem, se prestar bem atenção na roupa de Heitor durante a peça, o branco). O vermelho vem como complemento, quebra o tom monocromático que teria apenas com preto e branco e serve ainda para mostrar o "ciclo de sangue" que está por acontecer.
Dos oito artistas do elenco inicial, cinco ainda continuam. Gustavo Dalle Vedove, o empregado, um personagem pequeno, faz o que pode no tempo que tem e torna seu personagem simpático. Veridiana Ferreira se destaca como a mulher de Heitor, pois consegue mostrar com clareza e sem exageros a dúvida entre acreditar que está conversando com o homem que ama ou com outra parte remota de sua mente, que pouco tem a ver com ele. O protagonista Thiago Cardoso leva muito bem o espetáculo como Heitor, mostrando com clareza a insegurança e confusão aparente de uma pessoa que, às vezes, sabe o que tem e às vezes não.
Mariana Ferrari é a ex-sócia do protagonista e o faz de maneira espetacular, mesmo depois de morta. Quem assiste à peça com certeza se lembrará com clareza da expressão "A MARRETA!" ou de trechos, mesmo que desconexos, do soneto que dá nome à peça, "da Chaga Cancerosa", textos que saem de sua boca de maneira marcante. Voz, respiração e interpretação condizem com as situações vividas.
Aqui, cabe um grande destaque (pode parecer uma expressão redundante, mas é válida) a Valéria Santos, a outra personalidade de Heitor que toma o poder por vezes. A atriz usa como ninguém a força do seu olhar em cena, disseca o que quer que olhe apenas com o gume da visão. Seu trabalho de corpo, com passos firmes, às vezes rápidos e outras com a lentidão necessária, e uma leve corcunda servem para ressaltar a composição acertada da personagem. Além disso, Valéria sabe usar a voz a seu bel-prazer, como fica claro no momento da performance da canção de ninar.
É óbvio que não existe peça perfeita: cada apresentação teatral é diferente; o "caco", o erro na linguagem dos palcos, é sempre uma oportunidade para crescimento e, com talento, o errado sai mais bonito do que o certo. Neste caso, embora não seja um erro de apresentação, o Mal Secreto é um acerto na arte prudentina.
* Édison Trombeta é estudante do 5º termo de Jornalismo da Unoeste e amante das artes
Fonte: Édison Trombeta é estudante do 5º termo de Jornalismo da Uno