Se em muita fronte que parece calma,
Se em muito olhar que límpido parece;
Se pudesse notar, ler se pudesse,
Tudo o que n´alma existe e vive n´alma!
Entre essa paz fictícia que se espalma
No rosto, a inveja, raro transparece;
Ela que à glória alheia se enraivece,
E que às alheias lágrimas se acalma.
Alma, vítima dessa enfermidade!
Mal sabes que à dos outros sendo adversa,
Tu és adversa à própria felicidade!
A inveja os risos todos te dispersa:
Menos ódio merece que piedade,
Porque és mais insensata que perversa.
Raimundo Correia – Mal Secreto
Mal Secreto martela na cabeça – e nem pergunta como gostaríamos de morrer. Conforme a apresentação avança ficamos incomodados, desconfortáveis, por reconhecer que o mal agora já não é tão secreto e, mais ainda, nos domina como o beijo anúncio do fim.
A montagem, em seu cenário e iluminação que belamente traduz o encontro de oposições em suas cores e formas e através da atuação fantástica principalmente de Váleria e Thiago engendra a tensão entre o real e o sonho, o normal e o anormal, o correto e o incorreto. Ao final não é mais possível saber o que é verdade e o que é mentira, platéia, atores e personagens se confundem. Mal Secreto acende a luz sobre as nossas fraquezas, obriga a enxergar a apavorante possibilidade de perdermos o controle – queremos ser o incrédulo que ouve a confissão de Heitor. A apresentação termina: não somos mais cúmplices nem testemunhas. Reconhecemo-nos Heitor. Heitores. Quando fizermos nossa confissão...será que alguém vai acreditar? Mal Secreto angustia, muito mais ainda, porque obriga a admitir o sentimento de impotência diante do domínio do atraente desconhecido.
Aplausos para Antonio Junior, Fabrícia Neres, Gustavo Dalle Vedove, Joice Aguiar, Mariana Ferrari, Thiago Cardoso, Valéria Santos, Veridianna Ferreira, Denílson Biguete.
O inferno não são os outros; somos nós mesmos. Pra quem fica, boa noite.Fonte: Juliana Maria Cristiano Gense