AINDA SOBRE O MAL SECRETO
O quanto será que as doenças nos amedrontam nos mobilizam, e afinal nos levam a gestos anti-sociais extremos como perpetrar a morte ao outro. Eu particularmente creio que a nossa sociedade de capitalismo neoliberal tardio, com tendências individualizantes impostas pelo capital transnacional tem uma grande parcela de culpa/importância nos casos anti-sociais/violentos. Mas não foi esta a intenção da Cia Mênades e Sátiros, eles quiseram fazer um libelo sobre doenças psíquicas que acarretam atos violentos extremos. Parece que os casos terríveis que vemos a algum tempo nos veículos midiáticos moveram o grupo a debruçar sobre o tema. Na verdade poderíamos nos perguntar sobre qual e o “meu mal secreto”, o quanto daquele Heitor existe dentro de mim, da minha cabeça. E talvez ai esteja a grande pergunta que como espectadores poderíamos tirar da trama. O espaço do Lugar das Artes serviu muito bem ao intento do grupo. Parecia-me que estava dentro da cabeça de Heitor, escura, com alguns pontuais focos luminescentes (jardins invertidos). Alias, como pode ser o nosso mais intimo ser.
Essa não e a primeira vez que Denílson se serve do texto. Já se vão quase vinte anos (Nossa! Tanto tempo assim!) desde a primeira vez que ele se utilizou das loucuras de Heitor. Digo isso, porque eu estava lá. Fui o primeiro dos Padilhas (ate agora três) em encenações do diretor. E claro que aquele não era o atual Mal Secreto, era uma versão carnavalizada, quase pós-moderna, o Abismo de Rosas, mas tanto lá como cá, o louco (hoje Heitor, ontem Cindinho) saia pelas ruas à procura, a cata. E com certeza para matar. O que ama, o que odeia, o que esta o vendo, o que o acusa.
Eu penso, no entanto, se a peca faz os espectadores realmente refletirem sobre os psicopatas que estão por ai. Será que nos como cidadãos estamos realmente nos posicionando no sentido de entendermos os casos de violência que acontecem entre nós? Artistas que se matam, filhos que matam os pais, pais que matam os filhos, policiais que matam `bandidos`, `bandidos` que matam policiais, guerra de drogas, pedofilia. A abjeção da sociedade moderna se escancarando aos nossos olhos, talvez porque não quisemos olhar quando estava ao nosso lado, na nossa casa, na nossa rua, na nossa família, ou dentro de nós. E, por vezes, também fica glamorizada, quando bate recordes de bilheteria cinematográfica.
Nós prudentinos poderíamos dizer a algum tempo atrás que isso “só nos grandes centros”, “tão longe de nos...”, mas a face punitiva da sociedade da qual nos também fazemos parte nos brindou com os punidos, em grande parte, cumprindo punição em nosso meio. Talvez para nos lembrar que se não nos posicionamos porque os problemas estavam “há mais de 600 km de nós”, agora o nosso VELHO OESTE paulista será para sempre parte do processo, com a fatia mais dolorosa da justiça, A PUNIÇÃO. Dolorosa para o acusado, que se sente injustiçado. Dolorosa para o acusador, que apesar da pena, sempre se sente injustiçado. E dolorosa para a sociedade `VELHO OESTE` paulistana, que se sentiu invadida, usurpada, enganada, diminuída quando as instâncias de PUNIÇÃO vieram para cá. Quisemos nos distanciar do problema e ele se instalou (para sempre) entre nós.
Mas parafraseando o espetáculo, “há o cansaço, o cansaço... Cansaço do que... Do cansaço”. E assim que agimos, estamos cansados, exatamente como nos querem, aqueles que brevemente virão buscar, com canto de sereia nossos votos, estamos CANSADOS. Afinal de contas, a impotência social também sufoca. Mas como agir. A resposta atual seria policiar, pegar e punir os Heitores que estão por ai. Será que isso da conta? Será que basta, supre, resolve, efetiva, promove?... Será?
Enquanto isso, nas nossas cidades, mais e mais vezes vamos ficando estarrecidos com os casos que vemos, ouvimos, `assistimos`.
Na verdade a ação pressupõe entendimento anterior, entendimento pressupõe conhecimento, que pressupõe querer ter/possuir o objeto que antes era desconhecido. Isso e empoderamento (ou empowerment) e aí nós pecamos, não entendemos, não buscamos entender. Afinal e mais fácil, fomos acostumados assim, e quando os casos (pontuais e esporádicos e verdade) explodem a nossa face, queremos agir/vingar (bem Lei do Talião mesmo) como se nesse momento nossa inocência fosse um pouco mais tirada de nos. Nos vitimizando, esperando o “Uber-man” que venha nos salvar. Que situação perfeita para os donos do poder continuarem donos do poder.
Acho que a Cia. quer nos alertar que o terror está dentro de nós, no meio de nós, e talvez pior seja a gente. Porém a partir desse alerta (se ele me mobiliza, e claro) eu tenho que tentar agir/refletir, me posicionar, e ativamente enfrentar.
Dessa forma penso que Denílson finalmente fez uma versão do Mal Secreto, mais próxima do proposto pelo Jose Antonio de Souza. Parabéns pela vontade de questionar. Parabéns as Mênades (Fá, Joice, Mariana, Valeria, Veridianna), gostaria de pontuar que estou apaixonado pela beleza individual e artística de cada uma de vocês. Vocês, as Mênades, que eram responsáveis pelo sacrifício cerimonial a Baco. Parabéns aos Sátiros (Antonio, Gustavo e Thiago). Interessante como os três foram `sacrificados` pela Grande Sacerdotisa (Heitor/id), talvez as mortes mais cruéis do espetáculo. Sim, porque tenho certeza que o Heitor/Ego e o Heitor/Superego vão morrer. E de forma bem cruel (nós, sociedade, iríamos com certeza querer ‘puni-los’ exemplarmente, porque as atrocidades que eles irão fazer serão com certeza muitas e terríveis). E o sexo masculino se torna o `bode expiatório`. Solução feminista dessa psique, hein! Em todo caso, Evoé. Vida longa ao espetáculo, e principalmente desejo que ele cumpra em cada espectador o que a Cia. intenta. Que ele espelhe em nós o nosso labirinto que só leva para um único lugar, ao cerne do Mal Secreto.
Eduardo Luis Couto. Assistente Social, especialista em Trabalho Social com Famílias.
Fonte: imprensa - Lugar das Artes