ESSÊNCIA
DO TEATRO I
Antunes
Filho
Eu acho que o
palco, como a catedral e a montanha, são umbigos do mundo, têm a ver com
algumas coisas cósmicas. No umbigo do mundo, o contraste céu e terra, terra e
céu. Há no homem o mistério da transcendência do universo, para onde vamos, o
que somos, tudo isso. Há um mistério em tudo que nos envolve, não existe
nenhuma inverdade. Existem milhões de verdades. São coisas individuais de cada
um com o mistério da vida. Eu faço que nem o Einstein, para quem a Terra é uma
coisa que pensa tudo isso. Eu quero ver que coisa é essa que pensa tudo isso.
II
Aimar
Labaki
Teatro é arte
do corpo. Só acontece quando pelo menos dois corpos se comunicam no mesmo
espaço físico e no mesmo momento- o de um ator e o de um espectador. No entanto
estamos na era da virtualidade, em que nem o corpo é valorizado, nem se
movimenta com facilidade. Em que, por um lado, vivemos a ilusão de que o
consumo passivo de imagens, sons e conteúdos substitui a contento a
participação ativa na polis e o contato direto com o outro. E por outro lado, a
violência, as dificuldades financeiras, a criminalidade nos convidam a ficar em
casa. Como pode uma arte que exige a presença física do espectador sobreviver
numa época em que o corpo se esconde em casa ou na mente?
Teatro é arte
da palavra. Consiste na construção de uma experiência sensorial a partir de uma
palavra comum a artistas e espectador. No entanto, vivemos a época da imagem.
Há uma geração, perdemos o hábito de escrever à mão. Agora, já estamos nos dasacostumando
a ler. Para uma sociedade iletrada, falta pouco. Como pode uma arte fundada na
palavra sobreviver numa época em que a imagem pretende substituir a articulação
verbal?
Teatro é arte
política, trata de conteúdos comuns a dois cidadãos- o ator e o espectador. Não
que trate sempre de tema político, nem que tenha sempre algum conteúdo
ideológico (até tem, mas não é disso que estamos falando). Mas seu conteúdo,
para poder ser plenamente compreendido, tem que pertencer ao repertório comum a
ator e espectador. Mesmo que trate de temas “privados”, se dará no contexto da
cidade, da polis, e é portanto, literalmente, político.
Sendo uma
arte do corpo, o teatro é forma de resistência a uma virtualidade que impede o
pleno desenvolvimento do ser humano. Sair de casa e comparecer a um evento ao
vivo já é em si uma forma de resistência. Se for para partilhar uma palavra que
permite uma reflexão, ainda que indireta, sobre a vida em comunidade, mais
ainda. E os jovens resistem sempre, nem que seja por desarranjo hormonal.
Sendo arte da
palavra, teatro é instrumento de conhecimento. No momento em que a educação
vive uma grande crise de identidade e de valor, uma arte que permite a
redescoberta das possibilidades da palavra exercitada em público, na reflexão
dialógica, pode ser um instrumento estratégico para a construção de uma
pedagogia de resistência.
Sendo uma
arte política, o teatro acaba sendo o escoadouro natural para reflexões que não
encontram espaço nas formas industriais de arte dramática- cinema, TV, etc... E
nos encontramos, no Brasil, em pleno processo de construção de uma democracia e
uma cidadania nova.
III
Henri
Gouhier
No início de sua Poética, Aristóteles distingue a tragédia e a comédia
da epopéia: são três artes de imitação, mas a última imita narrando, as duas
outras "apresentando a todos os imitados como operantes e atuantes."
(1)
"Daí sustentarem alguns que esses poemas se denominam dramas, drámata,
porque imitam pessoas que agem, dróntas" (2). A
"imitação" de um homem agindo só pode ser uma representação, quer
dizer, uma ação tornada presente. (3)
Na representação, há presença
e presente: essa dupla relação com a existência e com o tempo constitui a
essência do teatro.Relação com a existência: aquele que entra em cena não é o
representante de uma personalidade, o delegado de um ausente: ele representa
uma personagem, transformando uma sombra em realidade. O embaixador não é
o soberano que ele representa: ele empresta-lhe a sua voz. O ator é o
imperador que ele representa: ele empresta-lhe seu ser.Relação com o tempo:
toda existência é atual, toda presença real é realidade presente; aquele que
entra em cena e aquele que está sentado na platéia são contemporâneos: eles
vivem ao mesmo tempo, senão no mesmo tempo.Um quadro, uma estátua, um romance,
um poema são sempre intermediários entre uma ação vivida ou imaginada e aquele que
vê ou lê; eles são sempre monumentos, monumenta ou monimenta,
recordações de um encontro entre o artista e o ato do qual ele quer realizar
uma forma. Quando Eugène Delacroix desenha ou pinta Hamlet no cemitério
de Elsinore, empunhando o crânio daquele que foi o bufão do rei - Ah, pobre
Yorick! - ele fixa uma cena, uma alma, uma filosofia em preto e branco,
testemunho imóvel de seu encontro com esse pensamento de Shakespeare que se
chama Hamlet. A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca,
corresponde a uma intenção completamente diferente: esses cinco atos são ações
em busca de atores que as atualizem.Atualização de ação através de
atores... A música, também ela, é um texto sobre o papel que aguarda do
músico ou do cantor uma atualização que lhe restitua sua matéria sonora.
Mas, como o quadro ou o poema, a música continua sendo um intermediário: o
canto não é o ato, o executante não é o ator. A Sinfonia Fantástica,
"episódio da vida de um artista", é apenas o "reflexo
melódico" (4) do
drama em que Berlioz se envolveu tomando Harriett Smithson por Ofélia.
Por mais alucinante que seja o lied do Rei das almas, Schubert continua
sendo um contista, e seu intérprete um narrador. No teatro, é a própria
ação que se deve repetir. Não se trata de executar mas de
ressuscitar. Imaginemos um concerto onde se executa a partitura do
segundo ato de Tristão; os cantores levantam-se no momento exigido por
seu papel; eles dizem suas falas olhando para o público ou para o caderno; a
música é realizada, não a ação; e assim a música diz muito mais do que a
cena pode mostrar. O concerto faz renascer uma música e, através dela,
evoca um drama: ele não ressuscita os seres com seu drama. [veja o que
foi dito na nota 3]
Representar é tornar
presente através de presenças.
O "fato
dramático" é portanto o ator. Não há teatro sem poeta, mas há poesia
sem teatro: a arte do ator e o texto teatral vem um para o outro e um do
outro. O autor está em tudo aquilo onde criar não é representar: somente
o ator está sobre a cena, e ele não pode estar em nenhum outro lugar.
Com o ator, o mistério
do teatro é o da presença real, antes mesmo de ser o da metamorfose.
Mistério profano do qual uma experiência cotidiana revela-nos os efeitos, pois
ela justifica a superioridade ou a inferioridade, segundo os casos, da
conversação sobre a correspondência, da questão oral sobre o exame escrito.
Estou diante de um
homem. Afirmo que ele é alto, magro e moreno; mas eu quase não intervenho
para afirmar que ele está lá: sua presença afirma-se em mim. Eu o conheço
como alto, magro e moreno; eu o conheço também como existente e presente: mas
os dois conhecimentos são bem diferentes. O primeiro é um saber detalhado
e progressivo; descubro pouco a pouco o que é esse homem, e depois quem é esse
homem. O segundo é uno e instantâneo: esse homem está lá, nada mais, nada
menos. Eu posso consignar um saber: descrevo o homem que está diante de
mim; posso transmitir meu saber: as memórias estão cheias de
"retratos". Esse homem está lá: que mais dizer? Sua
presença será simplesmente o objeto de uma informação.
O pensamento não passa
de um conhecimento de um outro por graus, mas por uma inversão é preciso
voltar-se para o concreto cru. A inteligência abstrai do real suas
qualidades, que ela restituir-lhe-á sob a forma de atributos no
julgamento. Quando ela o tenha esvaziado de todas as suas qualidades, ela
não poderia separar a existência do existente: a abstração não pode mais
abocanhar. (5)
A existência não pode ser atributo, pois ela é o lugar dos atributos; ela não
pode ser uma propriedade, pois ela é o proprietário: resta apenas sofrer sua
presença.
Tal conhecimento não é
uma sensação, pois ele não é especificamente nem visual, nem tátil, nem
auditivo: ele não é próprio de nenhum sentido, embora cada percepção lhe deva
sua consistência. Ele também não é um sentimento, se com essa palavra
designamos uma afeição do sujeito que se sente feliz, descontente ou
triste. "Intuição" também não convém (6):
uma intuição que não se refere ao eu do sujeito visa um objeto; ora, a
existência não é jamais um objeto; ela é aquilo que há de objetivo no objeto:
uma espessura sem contornos, uma opacidade sem formas, uma música sem linhas,
são abstrações desesperadas para designar aquilo que o objeto não deixará
jamais que se colha nele. O melhor termo é sem dúvida o que propôs um dia
M. Gabriel Marcel: a realidade nos é dada em uma certeza (7),
certeza contínua e potente como o baixo que sustenta um canto, certeza que me permite
avançar sem medo de cair no vazio.
O dado imediato da
presença é também um dom. Uma vez que ele está lá, eu sei que desse homem
aquilo que nenhum documento, nenhuma descrição e nenhuma fotografia me
dirá. Um conhecimento à distância freqüentemente é mais completo e mais
exato; o biógrafo às vezes compreende seu herói melhor do que o fizeram os mais
sutis de seus contemporâneos. Mas o recuo aproveita ao saber e, ainda uma
vez, da presença não emana nenhum saber: ela cria antes uma espécie de cumplicidade
propícia aos olhares indiscretos. Esse homem está em meu universo; eu
estou no seu: a vida obriga-me a simplificar e eu concluo logo que nós estamos
no mesmo; ei-nos aqui, por um instante, juntos no mesmo barco e é preciso que
façamos um acordo entre nossas prudências. Ora, essa familiaridade gera
uma sagacidade mais viva e mais perspicaz que a reflexão, senão mais justa,
sagacidade que dispensa de terminar as frases, que permite comunicar sem
palavras, que lê nos olhos e corrige as mentiras da boca através do
imperceptível tremor de uma mão.
Graça
da presença... Graça da adivinhação e não graça da luz, socorro do
diretor de consciência, fina seta do diagnóstico médico, força dos verdadeiros
chefes. Captá-la, este é o milagre do retrato; atualizá-la, este é o
segredo do conferencista; colocá-la como princípio de uma arte, esta é a
essência do teatro.
Fonte: Denilson Biguete