Login Senha
27/03/2008 - 27 de março dia Internacional do Teatro


ESSÊNCIA DO TEATRO I

Antunes Filho

Eu acho que o palco, como a catedral e a montanha, são umbigos do mundo, têm a ver com algumas coisas cósmicas. No umbigo do mundo, o contraste céu e terra, terra e céu. Há no homem o mistério da transcendência do universo, para onde vamos, o que somos, tudo isso. Há um mistério em tudo que nos envolve, não existe nenhuma inverdade. Existem milhões de verdades. São coisas individuais de cada um com o mistério da vida. Eu faço que nem o Einstein, para quem a Terra é uma coisa que pensa tudo isso. Eu quero ver que coisa é essa que pensa tudo isso.

II

Aimar Labaki

Teatro é arte do corpo. Só acontece quando pelo menos dois corpos se comunicam no mesmo espaço físico e no mesmo momento- o de um ator e o de um espectador. No entanto estamos na era da virtualidade, em que nem o corpo é valorizado, nem se movimenta com facilidade. Em que, por um lado, vivemos a ilusão de que o consumo passivo de imagens, sons e conteúdos substitui a contento a participação ativa na polis e o contato direto com o outro. E por outro lado, a violência, as dificuldades financeiras, a criminalidade nos convidam a ficar em casa. Como pode uma arte que exige a presença física do espectador sobreviver numa época em que o corpo se esconde em casa ou na mente?

Teatro é arte da palavra. Consiste na construção de uma experiência sensorial a partir de uma palavra comum a artistas e espectador. No entanto, vivemos a época da imagem. Há uma geração, perdemos o hábito de escrever à mão. Agora, já estamos nos dasacostumando a ler. Para uma sociedade iletrada, falta pouco. Como pode uma arte fundada na palavra sobreviver numa época em que a imagem pretende substituir a articulação verbal?

Teatro é arte política, trata de conteúdos comuns a dois cidadãos- o ator e o espectador. Não que trate sempre de tema político, nem que tenha sempre algum conteúdo ideológico (até tem, mas não é disso que estamos falando). Mas seu conteúdo, para poder ser plenamente compreendido, tem que pertencer ao repertório comum a ator e espectador. Mesmo que trate de temas “privados”, se dará no contexto da cidade, da polis, e é portanto, literalmente, político.

Sendo uma arte do corpo, o teatro é forma de resistência a uma virtualidade que impede o pleno desenvolvimento do ser humano. Sair de casa e comparecer a um evento ao vivo já é em si uma forma de resistência. Se for para partilhar uma palavra que permite uma reflexão, ainda que indireta, sobre a vida em comunidade, mais ainda. E os jovens resistem sempre, nem que seja por desarranjo hormonal.

Sendo arte da palavra, teatro é instrumento de conhecimento. No momento em que a educação vive uma grande crise de identidade e de valor, uma arte que permite a redescoberta das possibilidades da palavra exercitada em público, na reflexão dialógica, pode ser um instrumento estratégico para a construção de uma pedagogia de resistência.

Sendo uma arte política, o teatro acaba sendo o escoadouro natural para reflexões que não encontram espaço nas formas industriais de arte dramática- cinema, TV, etc... E nos encontramos, no Brasil, em pleno processo de construção de uma democracia e uma cidadania nova.

III

Henri Gouhier


No início de sua Poética, Aristóteles distingue a tragédia e a comédia da epopéia: são três artes de imitação, mas a última imita narrando, as duas outras "apresentando a todos os imitados como operantes e atuantes." (1) "Daí sustentarem alguns que esses poemas se denominam dramas, drámata, porque imitam pessoas que agem, dróntas" (2). A "imitação" de um homem agindo só pode ser uma representação, quer dizer, uma ação tornada presente. (3)

Na representação, há presença e presente: essa dupla relação com a existência e com o tempo constitui a essência do teatro.Relação com a existência: aquele que entra em cena não é o representante de uma personalidade, o delegado de um ausente: ele representa uma personagem, transformando uma sombra em realidade. O embaixador não é o soberano que ele representa: ele empresta-lhe a sua voz. O ator é o imperador que ele representa: ele empresta-lhe seu ser.Relação com o tempo: toda existência é atual, toda presença real é realidade presente; aquele que entra em cena e aquele que está sentado na platéia são contemporâneos: eles vivem ao mesmo tempo, senão no mesmo tempo.Um quadro, uma estátua, um romance, um poema são sempre intermediários entre uma ação vivida ou imaginada e aquele que vê ou lê; eles são sempre monumentos, monumenta ou monimenta, recordações de um encontro entre o artista e o ato do qual ele quer realizar uma forma. Quando Eugène Delacroix desenha ou pinta Hamlet no cemitério de Elsinore, empunhando o crânio daquele que foi o bufão do rei - Ah, pobre Yorick! - ele fixa uma cena, uma alma, uma filosofia em preto e branco, testemunho imóvel de seu encontro com esse pensamento de Shakespeare que se chama Hamlet. A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, corresponde a uma intenção completamente diferente: esses cinco atos são ações em busca de atores que as atualizem.Atualização de ação através de atores... A música, também ela, é um texto sobre o papel que aguarda do músico ou do cantor uma atualização que lhe restitua sua matéria sonora. Mas, como o quadro ou o poema, a música continua sendo um intermediário: o canto não é o ato, o executante não é o ator. A Sinfonia Fantástica, "episódio da vida de um artista", é apenas o "reflexo melódico" (4) do drama em que Berlioz se envolveu tomando Harriett Smithson por Ofélia. Por mais alucinante que seja o lied do Rei das almas, Schubert continua sendo um contista, e seu intérprete um narrador. No teatro, é a própria ação que se deve repetir. Não se trata de executar mas de ressuscitar. Imaginemos um concerto onde se executa a partitura do segundo ato de Tristão; os cantores levantam-se no momento exigido por seu papel; eles dizem suas falas olhando para o público ou para o caderno; a música é realizada, não a ação; e assim a música diz muito mais do que a cena pode mostrar. O concerto faz renascer uma música e, através dela, evoca um drama: ele não ressuscita os seres com seu drama. [veja o que foi dito na nota 3]

Representar é tornar presente através de presenças.

O "fato dramático" é portanto o ator. Não há teatro sem poeta, mas há poesia sem teatro: a arte do ator e o texto teatral vem um para o outro e um do outro. O autor está em tudo aquilo onde criar não é representar: somente o ator está sobre a cena, e ele não pode estar em nenhum outro lugar.

Com o ator, o mistério do teatro é o da presença real, antes mesmo de ser o da metamorfose. Mistério profano do qual uma experiência cotidiana revela-nos os efeitos, pois ela justifica a superioridade ou a inferioridade, segundo os casos, da conversação sobre a correspondência, da questão oral sobre o exame escrito.

Estou diante de um homem. Afirmo que ele é alto, magro e moreno; mas eu quase não intervenho para afirmar que ele está lá: sua presença afirma-se em mim. Eu o conheço como alto, magro e moreno; eu o conheço também como existente e presente: mas os dois conhecimentos são bem diferentes. O primeiro é um saber detalhado e progressivo; descubro pouco a pouco o que é esse homem, e depois quem é esse homem. O segundo é uno e instantâneo: esse homem está lá, nada mais, nada menos. Eu posso consignar um saber: descrevo o homem que está diante de mim; posso transmitir meu saber: as memórias estão cheias de "retratos". Esse homem está lá: que mais dizer? Sua presença será simplesmente o objeto de uma informação.

O pensamento não passa de um conhecimento de um outro por graus, mas por uma inversão é preciso voltar-se para o concreto cru. A inteligência abstrai do real suas qualidades, que ela restituir-lhe-á sob a forma de atributos no julgamento. Quando ela o tenha esvaziado de todas as suas qualidades, ela não poderia separar a existência do existente: a abstração não pode mais abocanhar. (5) A existência não pode ser atributo, pois ela é o lugar dos atributos; ela não pode ser uma propriedade, pois ela é o proprietário: resta apenas sofrer sua presença.

Tal conhecimento não é uma sensação, pois ele não é especificamente nem visual, nem tátil, nem auditivo: ele não é próprio de nenhum sentido, embora cada percepção lhe deva sua consistência. Ele também não é um sentimento, se com essa palavra designamos uma afeição do sujeito que se sente feliz, descontente ou triste. "Intuição" também não convém (6): uma intuição que não se refere ao eu do sujeito visa um objeto; ora, a existência não é jamais um objeto; ela é aquilo que há de objetivo no objeto: uma espessura sem contornos, uma opacidade sem formas, uma música sem linhas, são abstrações desesperadas para designar aquilo que o objeto não deixará jamais que se colha nele. O melhor termo é sem dúvida o que propôs um dia M. Gabriel Marcel: a realidade nos é dada em uma certeza (7), certeza contínua e potente como o baixo que sustenta um canto, certeza que me permite avançar sem medo de cair no vazio.

O dado imediato da presença é também um dom. Uma vez que ele está lá, eu sei que desse homem aquilo que nenhum documento, nenhuma descrição e nenhuma fotografia me dirá. Um conhecimento à distância freqüentemente é mais completo e mais exato; o biógrafo às vezes compreende seu herói melhor do que o fizeram os mais sutis de seus contemporâneos. Mas o recuo aproveita ao saber e, ainda uma vez, da presença não emana nenhum saber: ela cria antes uma espécie de cumplicidade propícia aos olhares indiscretos. Esse homem está em meu universo; eu estou no seu: a vida obriga-me a simplificar e eu concluo logo que nós estamos no mesmo; ei-nos aqui, por um instante, juntos no mesmo barco e é preciso que façamos um acordo entre nossas prudências. Ora, essa familiaridade gera uma sagacidade mais viva e mais perspicaz que a reflexão, senão mais justa, sagacidade que dispensa de terminar as frases, que permite comunicar sem palavras, que lê nos olhos e corrige as mentiras da boca através do imperceptível tremor de uma mão.

Graça da presença... Graça da adivinhação e não graça da luz, socorro do diretor de consciência, fina seta do diagnóstico médico, força dos verdadeiros chefes. Captá-la, este é o milagre do retrato; atualizá-la, este é o segredo do conferencista; colocá-la como princípio de uma arte, esta é a essência do teatro.








Fonte: Denilson Biguete

   
Ultimas Notícias
- 13/08/2010 - MAL SECRETO INICIA CIRCULAÇÃO PELO MAPA CULTURAL PAULISTA
O espetáculo, premiado pelo Mapa Cultural Paulista, projeto do Estado ...
Fonte: MÊNADES 4 SÁTIROS CIA. DE TEATRO
- 13/08/2010 - A SERPENTE NO FENTEPP
Selecionada pela curadoria para participar do XVII FENTEPP – Festival Naci ...
Fonte: MÊNADES & SÁTIROS CIA. DE TEATRO
- 26/07/2010 - Fuck you, baby no teatro municipal
Estréia no próximo dia 31/7, às 20h no Teatro Municipal Procópio Ferreira o ...
Fonte: assessoria de imprensa
- 22/06/2010 - A SERPENTE
A SERPENTE, de Nelson RodriguesDireção: Denílson BigueteEncenação: Mênades ...
Fonte: LUGAR DAS ARTES
   Veja Toda as Notícias...
 
Rua Júlio Preste, 471 Jardim Aviação Presidente Prudente - SP Fone: (18) 3917-3797 contato@lugardasartes.com.br